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Entenda o que são fake news e como identificá-las



Ainda bem que a frase “se tá na internet, é verdade” é só um meme. Com o crescente fenômeno das fake news (notícias falsas), informações imprecisas e inverídicas são compartilhadas todos os dias nas redes sociais. Em ano eleitoral, a situação piora, e até os próprios candidatos potencializam a disseminação de notícias falsas para se sobressaírem com o prejuízo da imagem política e ideológica dos concorrentes. É importante entender que as fake news não atingem apenas o âmbito político; no Brasil, porém, é neste nicho o principal foco delas.
O editor de política do jornal Gazeta do Sul, Pedro Piccoli Garcia, explica que o fenômeno acontece dessa forma no país devido ao momento político brasileiro de polarização extrema, que se agravou ainda mais com o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e os desdobramentos da Operação Lava Jato. “O que a gente vê permanentemente é um embate entre narrativas e grupos ideológicos. Um tenta desqualificar o outro perante a opinião pública, e as fake news são um dos instrumentos que se utiliza nessa guerra”, explica.
Exemplo disso são as mensagens que circularam em março deste ano sobre a vereadora do Rio de Janeiro morta a tiros, Marielle Franco (PSOL). Em correntes de WhatsApp e notícias de sites independentes, ela era acusada, dentre outras mentiras, de ter envolvimento com o crime. O site Ceticismo Político compartilhou a matéria “Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’” na página do Facebook e obteve mais de 360 mil curtidas. A fanpage foi retirada do ar


Corrente que circulou no WhatsApp tinha informações falsas
Nenhum veículo de comunicação confiável, da mídia tradicional, publicou quaisquer dos fatos acima, mas, mesmo assim, muitas pessoas curtiram e compartilharam a notícia ou a mensagem instantânea sem questionar. Aos poucos, porém, as informações foram desmentidas por sites de fact-checking (checagem de fatos), como o Aos Fatos. Tentando seguir o mesmo ritmo das fake news, mas no sentido contrário, sites de checagem como esse começam a surgir para verificar, desmentir e explicar informações que geram dúvidas sobre a veracidade.
Diferença entre fact-checking e jornalismo tradicional
A maioria dos sites de checagem de fatos é feita por jornalistas. No Rio Grande do Sul, existe o Filtro, que faz parte da ONG de jornalismo e direitos humanos Pensamento.org. O portal ainda está em fase de arrecadação de fundos pois vai atuar na checagem de declarações dos candidatos ao governo do Estado durante a campanha eleitoral. “Nosso trabalho é baseado em estatísticas, documentos, enfim, ‘provas’ que permitam identificar a confiabilidade de fatos e dados dessas declarações, assim como de conteúdos de posts de Facebook e correntes de WhatsApp que possam influenciar o debate público”, explica uma das integrantes da equipe do Filtro, Taís Seibt.
A jornalista desenvolve sua tese de doutorado na linha de pesquisa do fact-checking. Ela identifica duas diferenças principais entre os sites de checagem e a mídia tradicional. Uma delas é confrontar as declarações públicas. “No jornalismo tradicional, o repórter abre aspas e reproduz a declaração. O fact-checking surgiu nos Estados Unidos como uma espécie de resposta a este jornalismo declaratório. Nos conteúdos de checagem, o ‘ele disse, ela disse’ dá espaço para fatos e dados que sustentem ou não essas declarações”, pontua.
A outra diferença é o princípio da transparência. Na matéria linkada acima, em que Aos Fatos esclarece as mentiras ditas sobre a vereadora Marielle Franco, todas as fontes e dados consultados para a apuração são expostos ao leitor, para que ele próprio possa checar o que foi utilizado pelo repórter. Segundo Taís, “na notícia tradicional, só temos acesso ao texto final, esse processo fica obscurecido, o que acaba abrindo margem para questionamentos sobre a credibilidade de certas publicações”.
Veículos de comunicação tradicionais publicam notícias falsas?
Veículos consolidados na mídia não tendem a publicar notícias sem conferir informações. Grande parcela da população brasileira desconfia até mesmo destes, mas geralmente essa descrença parte de posicionamentos políticos que diferem da linha editorial adotada pelo jornal, site, emissora de tv ou de rádio. Para Pedro Garcia, mesmo com essa situação, é muito mais possível se encontrar uma informação com um bom nível de apuração e responsabilidade nestes veículos.
“Por mais que também sejam alvo de desconfiança da população, hoje em dia, não se pode negar que eles dispõem de uma tradição e estrutura que impõe a eles uma responsabilidade que sites alternativos e engajados não têm”, argumenta.
É importante entender que notícias com erro são diferentes de notícias falsas. No jornalismo – principalmente no digital –, a pressa por publicar logo as histórias é uma demanda comum, seja para evitar furo do concorrente ou simplesmente para informar logo os leitores. No entanto, os erros são corrigidos assim que constatados e, muitas vezes, esclarecidos ao leitor como um equívoco. Nesses casos, não há a malícia das fake news de prejudicar alguém propositalmente. Taís Seibt ressalta que esse ponto é mais uma divergência entre mídia tradicional e site de checagem. “Um dos diferenciais do fact-checking é a elasticidade do deadline, a pressão do tempo não está acima da precisão”.
Como identificar fake news
Os jornalistas Pedro e Taís explicam que é fácil ver quando uma notícia é falsa. Para ela, muitas das fake news que alcançam grande viralização podem ser reconhecidas apenas com um procedimento básico: pensar antes de compartilhar. “Diante de títulos bombásticos, cheios de exclamações, é bom pesquisar o assunto em outras fontes e ver se veículos consolidados ou plataformas de fact-checking já trataram do tema”, ressalta.
O editor de política reforça a afirmação dela. “É importante verificar aspectos como: onde está essa noticia? Qual é o perfil da plataforma do veículo onde está essa informação? Ela está em outros veículos? Geralmente as fake news são geradas por sites de informação de combate, que não são pretensamente imparciais. É um site engajado, visivelmente ligado a um grupo político, seja direita ou esquerda”, explica. De acordo com Garcia, sites com esse perfil não publicam, necessariamente, apenas informações falsas, mas também distorcidas e aumentadas, ou não contemplam todos os aspectos da história, o que gera desinformação ao leitor.
Fenômeno atinge todas as classes sociais
Quem tem certo grau de escolaridade, pensa que só um público sem tanta informação cai na armadilha das fake news. No entanto, segundo Taís Seibt, isso não se restringe a uma camada específica do público. “Não é uma questão de classe social ou grau de instrução. Isso porque a lógica das fake news apela para o emocional e, como diz o ditado, ‘a paixão cega’. Diante de informações que causam surpresa, raiva, revolta, medo, alegria, ódio, o senso crítico do indivíduo fica reduzido. Há estudos que têm demonstrado isso”, diz a jornalista.

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