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Darino Sena: Se Guto sair, não dá pra condenar

Condenar Guto Ferreira se ele trocar o Bahia pelo Inter é fanatismo ou demagogia. Além de pagar mais, as perspectivas no Colorado são muito melhores, a médio prazo. Os gaúchos têm o elenco mais caro da história da Série B. A tendência, ainda mais agora, se levarem um bom técnico, é subir brincando. Já o Bahia, apesar de ter bons titulares, ainda sofre com carências no elenco que devem dificultar a permanência na elite.
O risco de Guto ser chamado de burro daqui a três rodadas pelo mesmo torcedor que hoje chora sua provável saída é enorme. Ele tem o direito de não querer passar por isso, sair por cima, deixando boa impressão e portas abertas.
O Inter é um clube maior e mais rico. Emplacando um bom trabalho lá, Guto teria condições de brigar por títulos nacionais e internacionais. Conquistas que o Bahia ainda não se permite sonhar, por mais que o clube esteja em inegável evolução e que Binha de São Caetano insista em discordar de mim – deve me xingar depois de ler esta coluna. O Inter pode mudar o patamar de Guto como treinador.
A oportunidade num clube do tamanho do Inter é o sonho de 10 entre 10 treinadores. No caso de Guto, ainda seria uma vitória pessoal. Foi lá, há 15 anos, que começou a carreira. Agora, voltaria pra casa muito maior do que saiu. Em vez de condenar o que seria uma opção lógica de Guto e ficar bradando asneiras bairristas, os detratores dele deveriam lutar por um futebol baiano maior. Que, num futuro próximo, possa dar condições pra um técnico dizer não a propostas como a do Inter. Atualmente, essas condições não existem.
MUDANÇA ESSENCIAL
Apesar de errar demais na formação dos elencos – gastar muito com jogadores questionáveis e manter lacunas abertas em certas posições, às vezes, por campeonatos inteiros, por exemplo –, a gestão de Marcelo Sant’Ana tem um grande mérito: botar o Bahia pra jogar pra frente, promessa de campanha do cartola.
Até então, imperava a cultura do jogo defensivo, reativo. Nos grandes campeonatos, o Bahia privilegiava a retaguarda, era escalado com volantes brucutus, jogava na base do contra-ataque e da bola parada. Comportava-se como pequeno.
Na atual gestão, isso mudou. Desde Sérgio Soares e seus três atacantes, passando por Charles, Doriva e, por último, Guto, todos os treinadores foram cobrados para atuar de uma maneira mais ofensiva. Propondo jogo, ficando mais com a bola, abrindo espaços e tentando dominar os adversários. Mudou a forma de jogar. Mudou a percepção. Se antes as referências eram os defensores Marcelo Lomba e Fahel, hoje o posto é de quem representa criatividade – Allione e, sobretudo, Régis.
É um avanço, sem dúvida, e foi essencial para reconquista do Nordeste, 15 anos depois de Robgol, Nonato e Sérgio Alves. Mas há um problema - o desequilíbrio. O time de Soares naufragou por não ter uma defesa sólida. O de Guto quase não sobe por ir mal fora, onde era mais pressionado.
Este ano, com Guto, a forma de jogar evoluiu. Enquanto tem fôlego, o Bahia pressiona e leva perigo aos rivais, independentemente do mando. Mas quando o gás acaba e é preciso alternar a marcação alta com uma postura mais recuada, o bicho pega. O desafio do novo treinador, se Guto sair, é corrigir isso. O da diretoria, é ajudar o técnico, quem quer que seja. Sem um goleador e pelo menos reservas confiáveis, até Pep Guardiola teria dificuldade em fazer uma campanha segura no Brasileirão.

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